Sobre o freezer

Foto: arquivo pessoal do autor
Um dia apareceu lá em casa um freezer, desses horizontais, enorme, desmensurado. Foi colocado na sala da vó, ideia em si sintomática do problema daquelas casas em que se tinha espaço de mais e dinheiro de menos. A sala da vó denunciava que existiam outras salas na casa, a sala da mãe e a sala, o que em si denunciava ainda que uma casa foi emendada na outra, uma primeira original para o casal recém casado, mas depois aumentada porque quando se é recém casada com um alguém que viaja de caminhão se está sempre sozinha em casa e se se é jovem demais quando recém casada porque todo mundo era o receio é ainda maior e o melhor é emendar a casa para vir morar junto os pais da noiva, que também são sogras, e que depois seriam avós, que nomeariam a sala. A escolha do lugar para colocar o freezer denuncia também como as coisas não tinham seus lugares, eram feitas como davam. A sala tinha um chão de madeira, como todo o resto paredes tetos colunas vigas, alto do chão, apoiado nos cantos em tijolos empilhados, alicerce escondido muito mais forte do que parece na escrita. Tinha uma porta inexplicável que dava para a garagem, abrigo dito, exatamente ao lado de outra porta, da cozinha, que também dava para o abrigo e as duas perpendiculares a uma outra porta, essa só a ausência da porta na parede, isso não é uma porta, moldura que invocava a porta que não tinha e que ligava a cozinha à sala da vó, de modo que a porta mesmo da sala para o abrigo só era aberta em raras ocasiões importantes como na novena de natal ou no velório do avô, anos depois. Tinha móveis perfeitos para uma sala, antes do freezer: uma mesa de jantar que tinha armação e pés de algum tipo de ferro fraco e o tampo de alguma madeira fraca, que nunca foi usava para se jantar, com as suas respectivas seis cadeiras em volta, de metal com encosto de algum tipo de courino ou coisa que o valha; um armário, baixo, de madeira com pês de metal, fórmica com motivos de flores em cores quentes amarelas, laranjas, marrons, com uma porta de madeira, na direita, duas gavetas estreitas em cima abaixo das quais duas portas de vidro que corriam de um lado a outro, em cima um faqueiro, presente de casamento da vó, que nunca foi aberto aguardando o dia de ser aberto e usado em uma ocasião especial que nunca existiu; duas cadeiras da bisavó, de madeira, que nunca foram usadas para sentar a não ser quando faltava cadeira, nas novenas de natal e no velório do avô, lindas, grandes, com couro vermelho e tarraxas pretas onde ficava a roupa tirada do varal durante a semana até no sábado ou domingo de manhã quando eram passadas, a ferro quente, todas, das blusas aos lenços; cortina de véu com um forro branco que cobria o vitrô de correr, de vidros estreitos e compridos dispostos paralelamente e que com o tempo ficava cada vez mais difícil de abrir pela ação mesma dele tempo; carpete, forração, carpê, um muito fino e gasto que deixou todas embasbacadas quando muitos anos depois foi feita a reforma e se viu a quantidade de pó que se acumulava debaixo do tapete, entre ele e o assoalho de madeira, apesar de semanalmente ser limpo com a vassourinha nas terças e com o aspirador da vó – porque cada casa se limpava com seu próprio aspirador - nas sextas. E uma cristaleira, essa sim de destaque a despeito de nunca ter visto um cristal, mas tinha cálices e taças presentes de casamentos e bodas que nunca foram usadas; garrafas e copos de licor presentes de casamentos e bodas que nunca foram usados; canecos comemorativos de times de futebol que nunca foram usados; todos em cima de toalhas de crochê com fios milimetricamente entramados pela vó, com mil motivos floreais e geométricos que emulam sem saber motivos de tecidos das tejedoras quéchuas, andinas, milenares, saber que deve ter passado por centenas de gerações de mulheres camponesas de dezenas de raízes e etnias; toalhas duras de goma, trocadas uma vez por mês independentemente de nunca ninguém usar nada da cristaleira. Em cima dela ficava fixo o telefone que a gente atendia em pé e aceitava a ligação continuando na linha após a identificação as chamadas a cobrar do pai sempre de diferentes cidades e estados do brasil, dois nove dois três cinco sete quatro. Em baixo o tapete comprido feito de retalhos que sobraram dos tecidos das roupas feitas em casa já que as mulheres eram costureiras – e babás, e cozinheiras, e faxineiras, e jardineiras, e lavadeiras mesmo sendo só do lar –, tecidos de muitas cores de diversas paletas dispersas pelo acaso, isso se a mulher não comprava as vezes o tecido para a calça do homem pensando já na combinação que ficariam os retalhos no tapete, o que colocaria o tapete de restos no centro da moda cotidiana. A cristaleira só era aberta em duas ocasiões: para trocar as toalhas de crochê ou quando eu passava, criança, correndo pela sala para chegar no quarto da vó, os passos pesados no assoalho faziam vibrar todos os vidros da cristaleira em um barulho tão característico sempre acompanhado do alerta um pouco bronca um pouco costume de não corra na sala da vó que a mãe dizia enquanto fazia o almoço e bem aí, no momento em que eu passava correndo, com a vibração que ia dos meus pés pelo assoalho até os pés da cristaleira, a porta se abria sozinha. Para evitar essa dinâmica – não a corrida da criança na sala, que essa era impossível evitar, muito menos a bronca habitual, naturalizada - sempre existiram dois pedaços de tecido azul, caprichosamente costurados apenas para servir de tranca, dobrados e colocados em cima de cada porta na hora de fechar, depois de serem trocadas as toalhas de crochê engomadas. Era afinal uma sala completa, de jantar, de visitas ou de estar, mas estar nela mesmo ninguém nunca estava, nem se recebia visita, nem se jantava. Mas um dia chegou o freezer, que agora ocupava parte considerável da sala, duas portas imensas que eu quase nem conseguia abrir e que só se tinha em bares, lanchonetes ou festas de casamento modernas que já não usavam a tina cheia de gelo. O freezer foi colocado na sala da vó, pois não tinha outro lugar na casa. Toda vez que o motor do freezer ligava a sala inteira vibrava, com a vibração que do motor ia ao assoalho flutuante que transmitia a vibração pelas paredes celulares agora duras cheias de celulose e lignina das células da madeira até outro lado da sala e então vibravam os vidros da cristaleira, vibraram as taças, copos e canecos de dentro da cristaleira, e se abria a porta, como se uma criança tivesse passado correndo e foi preciso costurar um pano azul mais grosso para evitar esse problema. E o freezer permaneceu lá, por anos. Fora comprado no carnê em tantas e quantas prestações, coisa da hermes do macedo, junto com o vídeo cassete de duas cabeças, maquizcóatl moderna que não pôde prever sequer que seria logo obsoleto vencido pelo de quatro cabeças, isso mesmo sem ninguém nunca saber bem o que faziam as cabeças. Fita vhs o avô nunca deve ter visto uma na vida, bar já não tinha há muito tempo, muito menos dinheiro para ter um freezer daquele tamanho e encher ele de carne ou de não sei o que mais se pode encher um freezer daquele tamanho. Mas eis que num dia de primavera chegou a Neuza, com sacolas de carne do mercado da cidade grande vizinha que tinha ido comprar em promoção e para aproveitar bem a promoção comprou mais carne do que cabia no seu congelador da geladeira, mas a promoção era tão boa que correu o risco de comprar e não poder guardar mas sabia que na casa da tia, vizinha, agora tinha um freezer. E as carnes da Neuza ficaram lá um tempo, tiradas aos poucos no dia de fazer almoço e a Neuza aproveitava para subir na tia pegar a carne e tomar umas cuiadas de chimarrão. Num outro dia, no verão, o pessoal do clube de pesca, vizinhos, parentes, tinha voltado de uma generosa pescaria no Iguaçu, de acampamento, com muitos peixes quando ainda se podia comer peixes do Iguaçu sem se preocupar com o veneno que ia das lavouras para as águas e que os microorganismos comiam, que as plantas comiam, que os pequenos insetos aquáticos comiam, que os pequenos peixes comiam, que os grandes peixes que comiam tudo isso comiam mais e que, por aquela cadeia de energia a gente que pesca o peixe grande e come, come muito mais veneno, mas o fato é que sem pensar nisso tudo os pescadores voltaram com os muitos peixes e foram recebidos com risadas e bons olhares na frente do bar do Luis Costa. Na rua as crianças alvoroçadas querendo saber tudo mas sem ninguém contar nada porque conversar mesmo ninguém conversava muito menos com criança, eram só as questões práticas do fim da pescaria e junto com as crianças algumas esposas já olhando toda a roupa que agora teriam para lavar e todo mundo do lado da pescaria feliz sujo cansado, mas como sempre escondendo o cansaço, a sujeira e a alegria por motivos diferentes e que se ignoram. Ali mesmo, na calçada, se procedeu como se procedia sempre nesses casos que era o dividir os peixes em quantos montes tinham sido os pescadores – o que é um trocadilho hoje anacrônico mas que nos dias de chegada das pescarias era feito aos montes, arrancando risadas do povo em volta – por tamanho o maior aqui, o segundo maior ali, e depois se voltava no sentido inverso se completando, mais um aqui nesse, falta um bom naquele, e dois para compensar esse grande ali e assim até o fim. Depois era escolhida uma criança versada nos nomes de todos os pescadores, que eram todas, e como tinham muitas crianças demorava para chegar a vez de cada uma de novo e por isso mesmo – e pela tarefa ser de considerável capital simbólico – era grande a disputa silenciosa para ser a criança escolhida. Escolhida, a criança se escondia virada de olhos fechados e alguém perguntava e esse monte é de quem, do Walter e esse outro de quem, do Berto Cardoso, e esse outro de quem sempre sem olhar sem saber de quem era, se era do próprio pai, tio, avó, vizinho ou assim por diante e se tinha sempre o risco de escolher para os de casa justo o monte que era o pior porque no fim sempre um pensava que tinha sido injustiçado mostrando que não é fácil proceder de forma justa, mesmo a justiça sendo cega como era a criança que escolhia nesse caso. E como quase ninguém tinha onde guardar os peixes em casa, muitos ficavam no freezer da sala da vó com suas etiquetas de papelão cortado com os nomes de cada um dono, que era minha tarefa fazer e recortar e grampear no plástico. Numa outra ocasião, minguante de outono, mataram o boizinho que um outro avô criara, poupança bovina, e as carnes eram divididas entre as filhas, quase como o peixe entre os pescadores, numa operação análoga mas sem a criança e o sorteio porque nesse caso a justiça era feita mesmo pelo dono do boi. Uma parte das carnes ia parar no freezer da sala da vó, dentro dos mesmos pacotes transparentes de alimentos que agora eram presença onipresente na lista de supermercado, marcados com as mesmas etiquetas de papelão cortado grampeadas por mim, que tipo de carne era qual porque dentro de um freezer todas as carnes são iguais. Chegou o inverno e como tinha lugar no freezer, desmensurado, foi feito suco de fruta para guardar congelado. O suco era feito no inverno para aproveitar as frutas cítricas que por um capricho delicado de sua natureza se resolveram que nessa parte do mundo frutificariam em suas árvores justo no inverno, indiferentes ao gosto humano de tomar um suco de limão bem gelado no verão. E não importa o quanto um goste de água de limão ou de suco de laranja, o fato é que no verão não tem limão, nem laranja, nem mexericas e suas derivações frutíferas e linguísticas. O engenho simples daqueles mulheres dobrava a vontade inquebrantável da natureza: no auge do inverno, todo limão e toda laranja eram colhidos, de cada um dos quatro, cinco, seis pés espalhados pelo quintal, até dentro do galinheiro tinha um limoeiro, e o montante final era um monte de limão e um monte de laranja. O trabalho de espremer frutas e passar suco no pano era enorme, justamente proporcional à quantidade de potinhos e pacotinhos de suco que seriam congelados no freezer e do prazer prolongado de se beber suco de fruta depois que as árvores frutíferas não mais frutificassem. Os pequenos, de limão, para pouco suco. Pegue dois para o almoço a mãe dizia. O pote de margarida, maior, de laranja, mesmo porque como seria de limão, só se fosse pra fazer um balde de suco. Hoje pegue um de laranja. Eu ia, entrava correndo na sala da vó, ouvia toda a cristaleira tremer, passava pela cadeira vermelha da bisavó, desviava da alavanca de abrir a parte de cima do vitrô, basculante, àquela altura um perigo exatamente na minha altura, abria o freezer, quase tinha que entrar nele para alcançar o pote de suco, na ponta dos pés. Ficavam no canto direito. A outra porta era das carnes, peixes e favores. Foi quando percebi que gelo queimava a mão, paradoxo das certezas físicas, no caminho de volta do freezer para a pia. Assim, sem nem se perceber, passou o ano, o freezer encheu. Encheu e esvaziou algumas vezes, movimento regido pela habilidade de pesca da vizinhança, pelas promoções de carne no mercado, pela presença de polinizadores e adubos nas árvores frutíferas, pelo altruísmo comunitário que nunca um freezer tinha presenciado antes. Um dia, não sei em que estação, deu na rádio que os peixes do Iguaçu não podiam mais ser consumidos, alguma coisa de poluição química ou algo assim, que ninguém entendia. Cada um já tinha sua geladeira com o pequeno freezer acoplado, o trabalho de espremer o suco em cada inverno ficou mais caro que o suco cheio de conservantes do mercado. O freezer, esvaziado e vazio, foi vendido por um preço módico para alguma igreja do interior para ser usado nas festas de padroeiras, rodeado e preenchido de muitas rezas, bebidas e trabalhos voluntários. Seguiu sua trajetória comunitária.