Travessia

Sobre juntar as pontas

Retiro Grande - A Fonte 050

Maio chegou mais cedo, mais frio e mais urgente. Era tempo de plantar ervilhas. Tarefa adiada por chuvas a mais e tempos a menos. “Hoje vou plantar as ervilhas”, ela disse. O suporte de bambu já estava pronto para receber as mudas – plantadas das sementes da colheita anterior, numa operação meticulosa de comer umas, separar e guardar outras – e os barbantes – caminhos de algodão por onde os ramos subiriam durante a temporada. “Você me ajuda com os barbantes?”, e era minha a tarefa de aprontar o barbante para o uso. Só existe um jeito de aprontar o barbante para o uso: fazer bolinhas de barbante, enrolado nele mesmo, uma bola de centro que não é circular, que sequer existe, que se transforma em bola aos poucos, com voltas e voltas, linhas e linhas, para facilitar o manejo e dificultar os nós. O barbante é uma dessas coisas das mais inusitadas que sempre está presente na vida da gente. A palavra mesmo, barbante, eu nunca tinha escrito tantas vezes em tão poucas linhas. Lembrei do rolinho de barbante que ficava guardado na primeira gaveta do grande armário vermelho, na cozinha da infância. A gaveta era de ferramentas e coisas cotidianas em geral, alicate, fita crepe, um metro que sempre virava brinquedo que virava bronca, chave de fenda de cabo quebrado, resistências de chuveiro do modelo anterior, parafusos diversos, pregos com pontos de ferrugem que sujavam a gaveta e denunciavam a reutilização, a tesoura de poda preta com a mola preta que ficava fechada presa por uma borracha preta e que foi a mesma durante décadas, chaves velhas que já não tinham mais portas para abrir, moedas que tinham outros nomes e outras inflações, uma lima velha enrolada num pedaço de jornal ainda mais velho, santinhos dos candidatos da última eleição para prefeito, os mesmos de todas as outras eleições passadas e futuras, que só foram substituídos por seus respectivos filhos, como eles mesmos tinham substituído seus respectivos pais. No meio de tudo, o rolo de barbante, que já tinha sido branco um dia quando veio sabe se lá de onde, mas que já compartilhava com os pregos o tom avermelhado da ferrugem, com a tesoura de poda o tom sujo da graxa velha e com o fundo da gaveta a poeira que ardilosa se acumulava grão a grão durante os anos. Enrolado, como quem tivesse na gaveta há gerações, servia para uma insuspeita quantidade de coisas, que de tão óbvias não podem ser listadas, de modo que era tão importante o barbante que tinha um lugar na gaveta de dentro. Quando acabava um rolinho, era hora de ir até o paiol buscar outro, tarefa de criança que eu apreciava. Sempre gostei de entrar no paiol. O primeiro paiol, anexo a casa, paiol de dentro, hoje quem sabe seria chamado de despensa ou depósito, mas que as tranças de cebola e alho, as enxadas, machados e cortadeiras, o pote de graxa, os utensílios de pesca, as bacias de colocar o pé de molho e os tachos de fazer doce de abóbora o tornavam mesmo um paiol, a despeito de dividir espaço com os a mais detergentes, papeis higiênicos e outras compras. Existiam mais dois paióis, numa ordem clara de hierarquia organizacional. O segundo era de sementes, adubos, ureias, milho colhido, milho debulhado, máquina de debulhar milho, máquina de cortar grama, arapuca de pegar raposa quando não era época de pegar raposa, papéis, livros e revistas velhas e tudo mais o que tinha perdido o lugar no paiol de dentro na última faxina. O terceiro, chão de terra batida, com restos de tintas, de madeira, arames, pregos, ferramentas, e tudo mais o que tinha perdido o lugar no segundo paiol na última faxina. O paiol, primeiro, era quase um corredor, todo de madeira, porta de um lado, janela do outro. Embaixo dele, espaço vazio que eu entrava sem me abaixar até muitos anos, era a garagem de todos os meus carros, carrinhos, caminhonetas e caminhões de madeira. No fundo, perto da janela o armário que parecia mais velho que o próprio paiol tinha duas gavetas. Na da direita, uma cópia análoga a primeira gaveta do grande armário vermelho da cozinha. As mesmas coisas, só que mais velhas, mais sujas, mais sem serventia. E mais rolos de barbante de diferentes tamanhos, mais sujos e encardidos nas suas camadas externas. Me incomodava saber de onde vinham aqueles rolinhos de barbante. Pudessem as crianças fazer perguntas e soubessem os adultos responder, eu teria perguntado e sido respondido, talvez até ficasse satisfeito. Ao lado dessa, a outra gaveta, também de madeira, pesada de abrir, outra gaveta análoga a primeira e a segunda, com a mesma sorte de coisas dentro, ainda mais velhas, mais sujas e mais sem serventia. O sistema de gavetas era o mesmo replicado dos paióis, que também eram três, preservando a mesma relação de coisas cada vez mais sujas, mais velhas e mais sem serventia. Fosse Borges campo-larguense ao invés de porteño, seus labirintos infinitos seriam de paióis, gavetas e barbantes. Eu, que ainda nada não sabia de borges e labirintos, pegava o rolinho menos sujo e voltava para casa. O rolinho de barbante. A arquitetura do rolinho me encantava, parecia uma arte dessas quase esquecidas, que quase ninguém mais pudesse saber, dessas artes difíceis, como seria fazer um bom rolo de barbante, apertado o suficiente para não desmontar, distribuído organicamente o suficiente para não embolar. E aí chegou o dia, em um maio que era mais frio e menos urgente. Era tempo de desmontar a blusa de lã do inverno passado, recuperar a lã, fazer novos novelos, novas amarrações!, e novas blusas. Blusas, luvas, gorros. A noite nos encontrava de pantufas, pijamas e fogões a lenha para enfrentar o frio da casa de madeira, em que a temperatura de dentro por muito pouco não era igual a de fora. A forração fina e surrada do chão mal conseguia esconder as pequenas frestas do assoalho, embaixo do qual o frio repousava, tranquilo e silencioso, como quem já tinha encontrado um lugar para ser no inverno. Sentada na cadeira de madeira e palha, minha mãe desmontava os pontos, tão caprichosamente como havia os feito no maio anterior, penélope da sustentabilidade. Em pé ao lado de outra cadeira, eu esticava a lã entre as duas pontas do encosto, que ia e vinha como aquela brincadeira de pegar o barbante cuidadosamente das mãos da outra pessoa, pra ver novas formas serem criadas. Lã esticada, era hora de fazer rolinhos. Sinto a mesma dificuldade nas primeiras voltas, que insistem em cair para fora do centro e não formar um rolo. No chão, meu filho brinca com a ponta do barbante, já encantado com a magia desse artefato, que sinuoso imita cobras, estradas e cumes de montanhas. “Pronto, já plantei, só precisa passar o barbante”. A voz dela sempre me tirava de devaneios. Olhei para o grande cone de barbante na mesa, sinal de novos tempos, abundantes, o cone que foi fonte de todos os outros rolinhos de barbante, que hoje não são mais comprados por metro em não sei qual loja de qual das famílias dos candidatos a prefeito. Dia desses, um casal de amigos que se hospedou em visita viu o cone de barbante em cima do armário, em posição de destaque, “o que vocês tanto fazem com barbante?”. A resposta é uma narrativa longa, puxada pelo fio da memória, com muitas pontas soltas, ora confusa como um emaranhado, ora bonita como as formas contínuas da cama de gato. Os fios do barbante unem maios a maios, mães a filhos, gavetas a ervilhas. Os barbantes amarram os tempos.