Sobre escadas intrincadas

Foto: arquivo pessoal do autor
Entrei no restaurante antes da hora, o primeiro cliente da noite. Entrar em restaurantes ainda era um exercício consciente de mudança inconsciente, restaurantes não eram lugar para mim, nunca foram, era para outros. Um comportamento que já tinha passado da hora de acabar. Procurei na lista de precio-calidad, bons restaurantes, com bons chefs, sugestão da mulher companheira, que sempre sabia que os lugares eram para nós. Tinha nome de número, o que em si não parece um problema, mas quando a gente pára para pensar confunde, porque um nunca sabe como ler o número, se tudo junto, na milhar, se em duas dezenas, se por extenso ou um de cada vez, como quando a gente fala do número do cpf ou do rg, experimente mudar a figura ritmíca e falar de dois em dois se você sempre fala de três em três, ou ler centenas ao invés de indivíduos. Confusão total. A ida até o restaurante foi longa, e não só de deslocamento psíquico. O lugar era na penúltima parada do metrô, da linha amarela, justo na estação onde encontraram fósseis do tatu gigante de um milhão de anos – o que abre uma brecha escancarada no espaço tempo e faz a gente pensar em quanta gente e quanto tatu já viveu no nosso mundo, nas nossas ruas, no nosso mesmo solo e subsolo. Pedi uma mesa, sempre com o receio de ser tomado como um qualquer pelo garçom, que certamente tem uma sensibilidade apurada para saber quem frequenta aqueles lugares com segurança e quem acha que não é lugar para si. Não pude ficar no salão grande, iluminado, receptivo, para um sozinho só temos essas mesas aqui no escuro do lado do bar ou fora, então fora, fora então, perfecto bamos, e a sensação de que fui passado para trás aumentando no peito, mas a cabeça estava resoluta, vou sentar, tomar um vinho e aproveitar o famoso pastel de papas com carne braseada. A pergunta que mudaria os rumos da noite foi feita quando eu já estava vontademente instalado na mesa externa, apreciando o movimento urbano de Belgrano. O banheiro? O senhor entra naquela porta, sobe as escadas, ao final do corredor. Passei ao lado do balcão e entrei na porta ao lado do bar, a idade do antigo casarão se mostrava em cada detalhe da vista da porta, da fechadura e do teto. Entrei na porta, olhei à esquerda, na penumbra de quando saímos da luz para o escuro, muito escuro, olhei para cima. Lá, bem em cima, uma luz fraca anunciava que havia um corredor com algo no final tomara que o banheiro. No meio, o desnível entre meu chão e a luz era escuro, onde deveria estar a escada tomara, bastante íngreme e invisível com aquela iluminação. Tateei o primeiro degrau, de madeira, antigo. Pensei nas escadas do metrô. Primeiro sempre aquela escada despretensiosa, um nível abaixo da rua, desce, dobra a esquerda, anda, desce de novo, passa na catraca, desce a ampla escada rolante com uma sem rolar no meio, teto as vezes alto, as vezes baixo, mosaicos, pessoas subindo e descendo na solidão suas dessas capitais. Outro corredor, outro lance de escada. Placas indicativas coloridas, para lá é por aqui, para ir para o outro lado, por lá. E os trilhos, com seus túneis intermináveis, vindo não sei de onde do chão. Nunca se sabia onde se estava, para que lado se estava virado, para o sul, para o norte, para o nosso norte que é o sul, as direções se embaralhavam debaixo de tantas escadas. Mas o pior mesmo são as estações que duplas, triplas, se juntam. Trilhos que precisam passar por cima ou por baixo de outros trilhos, viadutos e trincheiras subterrâneas, sem subidas nem descidas. As escadas do metrô, buracos que levam para as entranhas da terra, mais dentro, mais embaixo, tocas da doninha kafkaniana que nunca está em paz, muitas entradas para cuidar e se descuidar. Pisei no segundo degrau da escada do restaurante, mãos procurando em vão o interruptor nas paredes lisas, de um lado e de outro, todas pintadas com a tinta preta da ausência de luz. Segui subindo. Pensei nos antigos fazedores daquela escada, recém não escravos, filhos de escravos esquecidos, invisíveis construtores de tantas tebas de sete portas e escadas de muitos degraus. Torci para que a despeito de seu destino miserável tivessem executado o projeto com precisão, para evitar aquela curiosidade que todo mundo já leu um dia, que bastam alguns milímetros de diferença entre um degrau e outro para que o tropeção seja inevitável, o que naquele escuro não seria desejável, mas se carece ter coragem. Continuei subindo. Um a um os degraus foram ficando para baixo, mãos buscando apoio nas paredes, a esperança de algum interruptor há muito já esvanecida, a luz fraca do fundo do corredor do alto da escada como único farol mostrando o caminho. Mais uma pisada firme, que mostrou um degrau solto, o nhec da madeira trabalhando naquele espaço ínfimo entre ela e o concreto de baixo. Embaixo do revestimento de madeira descansava em repouso a escada de concreto, no silencio daquela escuridão. Sorte muito diferente teve a escada da casa da vó Alice, vó dita mas bisavó de fato, a casa enorme de madeira que foi vendida inteira, desmontada e montada em algum outro lugar, não sei com qual formato, com outras avós, outras netas e outras escadas. O que sobrou foram as escadas da frente, as ruinas, junto com a varanda de concreto que agora circundava a terra nua cheia de capim onde antes ficava a casa, a terra nua com a varanda sem sentido e a escada que só levava à varanda sem sentido, na avenida agora movimentada, como um escárnio do progresso que destrói mas não leva a lugar nenhum – a não ser a casa, que foi para outro lugar. Nos muitos anos em que as ruínas resistiram – se é que ruínas resistem, se já são – muitas conversas e confidências naquelas escadas, com o portão de ferro que nunca mais fechou, que juntava folhas entre ele e o primeiro degrau, cercado de tempo parado ao lado da calçada cheia de transeuntes. Por fim derrubaram as ruínas, as máquinas vieram, se foram as memórias e a esperança de se encontrar a panela de ouro, sempre escondida em algum outro tempo, sempre procurada, nunca encontrada. Olhei para trás, na escada escura, antes do próximo passo, com um fio de esperança reprimida de que um garçom viesse até ali, mira, a escada está escura, acenda a luz das escadas e a luz acenderia. Ao mesmo tempo a reprimenda, não devia ter parado já no primeiro degrau, e voltado, perguntado sobre a luz, sobre quem poderia acender, a vontade de subir com a luz apagada seria um desafio ou antes uma inibição da pergunta, a gente nunca pode incomodar o melhor é ir já fazendo e tentar resolver sempre. Já nos últimos passos o barulho da madeira foi igual ao barulho da escada de madeira da casa da vó Júlia, dita e de fato, que tantas vezes subi para chegar no quarto da tia em que tantas vezes dormi e que toda vez soava e ressoava. A escada do sótão, o quarto da tia, as prateleiras no vão da escada que sempre foram inacessíveis, coisas colocadas lá quando construíram a casa, cem anos antes, e o outro quarto, das coisas antigas dentro da casa antiga, uma antiguidade ao quadrado com a arca que atravessou o oceano no outro século, a vitrola armário que se um dia guardou um prato ou tocou um disco esse dia já foi e uma mistura de ferramentas com balanças, com presentes de muitos casamentos, enxovais de goma intacta, sempre guardados sem uso caso um dia fosse preciso usar. A memória da escada desaguou na memória da queda: o sonho, no quarto da tia, que terminou com a queda escada abaixo, no meio da noite, ressoando todos os barulhos de madeira possíveis. No sonho eu não achava minha cama, não tinha lugar. Não tinha lugar. Fui procurando, sem encontrar no quarto onde estava minha cama. Encontrei, no primeiro degrau do alto da escada e o que seguiu foram cambalhotas pelo quarto onírico e pela escada real. O medo da queda veio do fundo da memória, chegou na escada do presente, travou um pouco os músculos, as pernas hesitaram, me segurei na coragem das várias trilhas, das muitas montanhas que já subi, de dia e de noite, sem escada, sem medo, sempre no meu lugar. A luz fraca do fim do corredor ficou no nível dos meus olhos. Outro passo e a dupla revelação: um degrau que não chegou quando o pé escorregou para encontrar a madeira perpendicular. O fim da escada! Ao mesmo tempo, a mão desencontrou a parede do lado esquerdo, a escuridão parecia mais intensa, apenas uma ausência da escuridão da parede. Uma lufarada de ar fresco, velho, ar parado com aroma de décadas, revelou na invisibilidade da escuridão um salão, que devia estar ali, um algo que eu não podia ver, mas sentia, a escada que levava para outro lugar não o esperado como muitas outras coisas da vida levam a gente. Enquanto buscava processar aquele salão de ar imemorial, com uma escuridão imensurável, na velocidade dos passos, o pé revelou um quê de coisa fora da realidade. Envolvido na aura onírica do salão que não se via, mais um degrau da escada. Fosse apenas mais um degrau na escada seria estranho, porque a luz fraca do corredor parecia estar no mesmo nível que eu, não cabia outro lance de escadas, acima parecia estar o teto. Mas o pé rapidamente passou a mensagem ao cérebro, ainda mais desconcertante, o degrau era para baixo, a escada que havia nem bem sido terminada de subir agora descia, ¿descia?, escadas de esher, que subiam descendo, escadas de borges para ser mais precisamente porteño, escadas que subiam e desciam aos salões mais impossíveis, aos trilhos dos metrôs mais profundos, veios abertos no chão da américa latina. O degrau para baixo me confundiu, deu vontade de sentar para tatear com segurança os próximos passos. Desisti do banheiro, necessidades fisiológicas podem sempre esperar, a gente sabe, pensei em voltar, olhei para trás, para baixo, para os lados, a mesma escuridão que não se via, a queda eminente. Já não conseguia saber se o próximo degrau era para cima ou para baixo, só pensava na queda, escada abaixo, rolando como na noite do sonho da infância. O ar fresco do salão escuro de repente rasgou a confusão dos meus pensamentos. Vi com clareza, sem enxergar um palmo à frente do nariz. Os caminhos e as escadas começam, mas a gente nunca sabe onde vão dar. Tem um lado da montanha, uma vista do outro lado, que só dá para ver do cume. Não importa quando a gente suba, o panorama só é completo do cume, quando a trilha chega no ápice, quando a caminhada chega na metade. Tem coisas que a gente não vê quando começa a caminhar, como a vista de uma montanha, escada acima, como os salões de uma caverna, escada abaixo. Só vemos quando mergulhamos na escuridão do salão escuro, sem enxergar. Com a lanterna do celular, iluminei o salão: um bar, fechado de segunda a quinta, prateleiras com vinhos, garrafas de bebidas várias, o luxo passado que na capital porteña insiste em enfrentar a decadência. Vi. Apaguei a lanterna, desci a escada com segurança, as escadas não são todas iguais às da infância. Comi o pastel de papa, caminhei até o metrô. Na estação, no último lance de escadas, reparei no mostrador o casco fossilizado do tatu ancestral que havia interrompido a obra anos antes. Respostas das profundezas.