Travessia

Sobre as rosas

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Foto: arquivo pessoal do autor

“Viu a rosa que abriu?” A voz dela mal conseguiu esconder a empolgação serena, de quem tem a sensibilidade para compreender a fórmula e a sutileza das complexas reações bioquímicas presentes naquela e em tantas outras rosas, que transforma moléculas de terra em botões cheios de pétalas dobradas – como não amassam lá dentro? - até que abrem, se esticam e se moldam rosa. Mágica. A natureza é mágica. A explicação mais simples e racional para a natureza é ser mágica. Ainda não tinha visto a rosa, mas na mesma hora pensei se seria possível fazer um escrito sobre flores de rosas que abrem sem ser piegas. Justo sobre a pobre da rosa, física e metaforicamente bastante desgastada. A rosa que já ajudou tantos amores duvidosos a conquistar, tantas desculpas pouco sinceras a convencer. Tornaram a rosa piegas. Mas ela é, antes de tudo, uma rosa. E quem sabe, evitando uma ou outra palavra, um escrito possa se abrir em flor – sem pieguice. Mas aquela rosa era diferente. “A flor é assim mesmo, lembra as flores de rosas selvagens”. Rosas selvagens. De onde veio a primeira rosa selvagem? “Deve ser da Ásia, muita planta nossa é da Ásia”, ela sempre sabia a origem das plantas. Europeus e seu colonialismo ecológico global do século dezesseis. A ideia de que um dia a rosa foi selvagem mexeu comigo. Foi um dia uma flor de mata, selvagem, com a rusticidade que só poderia ser assim, selvagem como tantas dezenas de flores selvagens que aparecem no solo da floresta ou nas calçadas mal cuidadas, em cada canto onde a natureza resiste – flores que furam o asfalto e o tédio. A rosa já tinha sido selvagem. Pensar sobre a rosa selvagem ecoou rosas antigas da minha vida. Toda casa da rua da minha infância tinha rosa, toda casa de todas as ruas do bairro da minha infância tinha pelo menos uma roseira. Tinha até uma família inteira assim sobrenomeada, da Sandra Roseira. Muitas Rosas de nome, uma em cada esquina. A Rosa do Leiteiro, para diferenciar das outras com a posse que sempre mostrou bem o machismo, às claras, não via quem não queria, já tinha até o exemplo daquela outra rosa, despedaçada debaixo de uma sacada depois de brigar com um homem. A Rosa filha da Odete. A da casa de tijolinho a vista. No bairro moravam também os Rossa, que eram um entre caminho entre a flor e o cultivo. E cada uma das rosas de cada uma das casas de cada uma das ruas eram cultivadas e manejadas pelas avós, sempre com o mesmo cuidado de gerações, que chegou até cada uma vindo de longe no passado, e se condensou na mão firme de pele fina que ao menor sinal de arranhão sangrava, nas articulações grossas talhadas nas décadas de manejo da terra fria e nas falanges distais tortas por quebraduras que não foram cuidadas nas infâncias delas avós. O corte era preciso, no ângulo milimetricamente e intuitivamente correto, e a rosa, linda, aparecia no vaso em cima da mesa, arranjada com algumas folhas de samambaia, um ou dois ramos de trigo plantados só pra isso, e uma confusão de mosquitinhos coloridos que transbordava beleza. A rosa, vermelha, era a rainha da mesa, a despeito da ironia óbvia do nome que não condiz, como muitos de nós que temos nomes que não condizem. A vó tinha no quintal rosas vermelhas, rosas rosas, rosas amarelas. A tia Ivete tinha rosas. A tia Rosa, claro, tinha rosas. Tia Iza, tia Nene, tia Araci, dona Maria, todas tinham rosas. A flor das mulheres, mas qual flor não era de mulheres, naquele tempo era sabido e aprendido que flores – e tantas outras coisas importantes, cuidados, carinhos, amores – não eram coisa para homem. Tinha as rosas que viraram referência, “aquela casa na esquina da casa da Ineizinha Garausse”, “aquela da roseira vermelha do lado do portão?”, “isso”. Confesso que não me agradavam muito, as rosas, o eu criança. Os espinhos não caiam bem, sempre aquela tensão para não chutar a bola doravante furada na roseira. Ou buscar a bola atrás da roseira. Ou passar com o caminhão de madeira, as rosas flanqueando o caminho entre os canteiros, esfinges da horta, passa longe ou arranho-te. Tinha também o problema hierárquico disciplinar das rosas. Chutar a bola num botão recém aberto, ou num galho que desavisado quebra, aumentava extraordinariamente a chance de uma varada nas pernas, vara de vime, ainda mais naquele dia, pela junção de outros pequenos delitos infantis sem importância que se acumularam. Tinha ainda o problema epistêmico das rosas, esse, nunca falado em palavras lá na época por conta claro da falta de palavras para falar de algo assim e pela própria falta de conversa mesmo com as crianças, mas os espinhos não eram bem vistos numa casa católica, onde a hipérbole barroca estava representada em cada canto, o divino coração coroado de espinhos numa parede, o próprio jesus com sua própria coroa de espinhos pregado na outra. E sangue por todo lado. Não havia dúvidas que as coroas de espinhos tinham sido feitas de rosas, apesar daquela outra planta - que modo ruim de nomear uma plantinha coitada - a coroa-de-cristo. A rosa pelo menos disfarçava. E por acaso que as coroas-de-cristo também tinham uma flor linda. Os espinhos da fé, que moviam a força da religião, que ameaçadoramente lembravam a todas para andar na retidão, só podiam ser de rosas. Daí que não era muito fácil gostar delas se a gente era criança. Tampouco era fácil gostar da Rosa cultivada e cativada pelo principezinho, achei possessiva, mas de certo que era eu, sendo posse quando li. Muitos anos depois, diante de outras referências, eu já sabia me defender melhor dos espinhos das rosas e da vida, e a beleza das rosas se mostrou para além dos espinhos. Mas agora, na minha casa, a rosa era de uma ascendência selvagem. A rosa devolvida à selva abriu um novo horizonte, mais acertado seria falar em um buraco, se é que existe isso de buraco, no espaço tempo. A rosa foi domesticada, por pura delicadeza de alguém que um dia, uma avó ancestral tenho quase certeza, teve sensibilidade para reparar na rosa no meio da mata, ainda flor-sem-nome-de-que-cor-será e começar o secular e lento processo de seleção natural ajudada, com as flores maiores de cores mais lindas tendo suas sementes guardadas. Uma a uma. Geração em geração. Paciência, pela singelo intuito de ter uma flor bonita no vaso em cima da mesa, talvez arranjada com algumas folhas de samambaia selvagem, com um ou dois ramos de trigo plantados para comer e desviados de sua função primeira por motivos de beleza, e uma explosão de mosquitinhos selvagens coloridos. Para uma flor selvagem virar uma flor de casa é preciso muita vontade de beleza, muita vontade de cuidado, muita paciência. E tempo, muito tempo. “Hoje em dia não existe mais essas coisas, não tem mais lugar pra elas no mundo”, há muitos anos a vó falava, enquanto colhia um botão de rosa para enfeitar a mesa. Falava dos fantasmas, das assombrações, dos boitatás e lobisomens, mas podia estar falando da beleza, do cuidado, do tempo e da paciência. Alguma outra flor selvagem de hoje, pode ser candidata à rosa cultivada de amanhã? O mundo está inerte no eterno presente, do ontem que não cabe mais e do amanhã que não importa, então quem vai olhar para as flores selvagens e dedicar tempo a elas, só pelo prazer de enfeite roseano, se não for para vender, e vender transforma a flor em mercadoria, processo bem menos mágico convenhamos do que a terra transformada em botões de rosas, processo que arranca algo da essência das flores, das rosas, da vida, de tudo. Vender é um fim alheio à beleza das rosas, das flores, da vida, de tudo. A tarefa de cultivar com carinho de satisfação, gerações de flores, essa quase não tem mais lugar, basta entrar na loja de jardinagem e ver o tamanho da sessão de flores de plásticos, que não vem de uma linhagem ancestral de flores selvagens, vem da máquina, acho até que já estão a pleitear o título de flores de verdade, mesmo sendo de plástico, não que as plantas de verdade colocadas nos quintais de mentira todos iguais sejam menos simulacro, mas ao menos fixam nitrogênio no solo, não microplásticos. O mundo parece ter outros planos para as flores, que não cultivar rosas ou domesticar flores selvagens. E tem o problema maior, pior, mais faltante, o tempo. Não há tempo para beleza, nem para a sensibilidade, nem tempo para cultivá-las. “Aqui nesse canteiro pensei em colocar mais outras três rosas diferentes”. A voz dela me trouxe de volta pra casa. Em casa o tempo cresce com as rosas. Quem tem a sensibilidade para a rosa de terra não consegue querer a rosa de plástico. “Olha, e tem outro botão que vai abrir logo”. A magia da natureza, acontecendo debaixo dos nossos narizes, um botão de rosa abrindo, o sorriso de satisfação transbordando pelo rosto. Acompanhar a sucessão dos botões da rosa é tomar de volta o tempo das mãos [quase nada] invisíveis do mundo. Os botões que se abrem, as rosas que se formam, o canteiro que toma forma. As rosas são lindas, claro, mas agora é hora do fim, a conclusão sempre chega, não dá mais para esperar, os escritos tem seus porquês, a pergunta precisa ser respondida, pelo sim pelo não, dá para falar das rosas de sempre e de tempos outros sem ser piegas? Uma palavra evitada, piegas e retomada, devolvida a sua beleza original, essa que de tanto ser usada no sentido figurado, se esqueceu do que era no mundo real: desabrochar. Quando a rosa desabrocha faz brotar a sensibilidade, despedaça a homogeneidade dos dias iguais. O desabrochar de um novo tempo escapa de ser piegas, se for revolucionário. Uma revolução profunda, a mais simples e complexa de todas, como o mecanismo bioquímico que transforma terra em flor. No fim, sabemos como semear a revolução. É preciso desabrochar os sentimentos dentro de cada um. Quem cultiva rosa, cultiva amor.

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