Sobre araras, papagaios e o turismo de faz de conta

Foto: arquivo pessoal do autor
Na esquina de casa tinha um hotel, como em muitas esquinas de uma das cidades mais turísticas do país. Esse hotel ficava às margens da avenida que vira rodovia que leva a uma das não sei quantas maravilhas da natureza: as Cataratas do Iguaçu. As cataratas, de fato maravilhosas, fazem pensar sobre um rio a cair infinitamente, água que não acaba, desde não sei quando no passado, espalhando vida enquanto escorre de um lado a outro do estado, até desaguar não sei onde no mar do futuro. O rio é mágico. Faça chuva ou faça sol ele corre, a não ser claro aqueles que são mesmo por natureza intermitentes que só correm quando faça chuva mas que por isso mesmo levam vida ainda mais preciosa por onde passam. Temos um rio que tem o maior conjunto de quedas do mundo e que, logo depois de cair se encontra com outro, um dos maiores do mundo, o segundo maior do continente, que leva o nome do estado. Esse passa a menos de quinhentos metros do centro da cidade. Passa também desapercebido, como o outro, como outros tantos em tantas outras cidades brasileiras. Ora subterrâneos, ora assoreados, ora soterrados de lixo, cloacas urbanas. Mágicos criadores de vida, invisíveis e quase sem vida. Quando os humanos ainda precisavam de água para viver, fundavam cidades nas barrancas dos rios e se preocupavam com a água. Aqui os rios servem mais como referência aos destinos turísticos da cidade: a grande barragem de um lado, as cataratas, de outro; se atravessa um deles para chegar ao país vizinho e o outro para chegar no outro país vizinho. Rios reificadas pelo turismo de massa. Um produto, que só vale para ser vendido da melhor forma possível. Esse hotel, na esquina de casa, era um hotel grande, bem localizado, com um ar decadente que de quem não acompanhou a impetuosa marcha do progresso. O grande muro da frente que dividia o hotel do capim alto da beira da rodovia sem calçadas um dia amanheceu inteiro pintado de branco. Como uma folha de papel de dezenas de metros quadrados, imaculada. Um convite à imaginação – na brancura do papel tem lugar todos os nossos sonhos e utopias. No outro dia, uma linda arara canindé tomou todo um vão do muro, pintada com seus amarelos e azuis, vivos. Linda. Majestosa. A primeira vez que vi uma arara canindé eu ainda era criança, da cabine do caminhão do meu pai em alguma estrada das novas fronteiras agrícolas do oeste. As cores eram espetaculares, inesquecíveis. Ela estava no corrimão da escada do restaurante do posto, indo de um lado a outro, asas cortadas por algum humano que gostava tanto de araras que resolveu que podia ser dono de uma e lhe arrancar as asas - mas cuidava bem dela, dava água e comida. As araras canindé fazem parte de um dos mais espetaculares grupos de aves do Brasil, os psitacídeos. Nesse grupo estão incluídas as araras, os papagaios, periquitos, maritacas, baitacas e por aí vai. Quase 90 espécies só no Brasil – e mais tantas mundo afora. Noventa combinações diferentes de cores vibrantes. Mas os psitacídeos não são apenas penas e cores bonitas. São das aves mais inteligentes que existem, com capacidade cognitiva comparada a de humanos crianças. Algumas espécies tem dezenas de vocalizações, um idioma pronto para a comunicação. São tão famosos que aparecem na primeira carta de descrição das terras brasílicas recém invadidas. Antes ainda, faziam parte da cosmogonia de várias etnias indígenas americanas, desde tempos que não se podem contar. São tão famosos que quase deram nome ao nosso país, nomeado de Terra dos Papagaios em alguns mapas de uma época em que ainda não tinha nome. São tão famosos que são capturados desde sempre, punidos por sua beleza e pela habilidade de imitar sons. Um deles é o papagaio verdadeiro, que deve ganhar esse nome porque tragicamente é o mais procurado para ficar na gaiola da entrada das casas proferindo palavrões aos visitantes, parábola de nossa violência naturalizada. Em alguns lugares, mais de 80% dos ninhos desse papagaio espetacular são predados por humanos, todos os anos. Oito em cada dez. Dos filhotes capturados, nove em cada dez morrem quando viram mercadoria. Os que sobram vão parar nas ditas gaiolas – ou nos corrimões de escadas de postos de combustível Brasil adentro. Aqui em Foz ainda existem, resistem, às centenas, indo dormir todos os dias nos eucaliptos do famoso gramadão, fazendo uma revoada espetacular nos fins de tarde que não virou produto turístico ainda porque ninguém se importa com papagaios indo dormir. Só não dormem quanto tem show, carnaval, luzes de natal e coisas afins – um pequeno ônus que eles pagam pelo bônus que nós ganhamos com os eventos. Os psitacídeos estão por toda parte. Do outro lado da cidade, poucas cenas são tão belas quanto uma revoada de periquitões-maracanã em frente às quedas das cataratas ao amanhecer – a sutileza das aves, a potência das águas. Nas florestas e nos céus de Foz já foram registradas onze espécies desse grupo, desde as onipresentes caturritas até as inusitadas aratingas-de-testa-azul ou os periquitos-de-cabeça-preta. Em Foz outrora existiram até araras, das canindé e também das vermelhas, ainda mais espetaculares pelas cores e pelo tamanho. Essas sumiram provavelmente porque as sementes de suas palmeiras preferidas deixaram de se espalhar e germinar rio Paraná abaixo, depois da construção da grande barragem – outro pequeno ônus que alguém precisa pagar, pelo bônus do progresso, outra pequena alteração na dinâmica da natureza que sequer enxergamos. Nos últimos anos foram registradas algumas araras canindé voando pela área central da cidade – mérito dos olhos e ouvidos atentos das passarinheiras da cidade. Provavelmente se tratam de escapes, termo usado para descrever quando um animal de gaiola foi, por algum motivo, solto no mundo, condenado a vagar até morrer. A linda arara canindé pintada no muro do hotel na esquina de casa me fez pensar na natureza e no turismo. Foz já teve araras, um dia. Mas Foz tem agora uirapurus, tem sucuruás, tem gaturamos bandeira, tem pica paus rei, tem jacutingas. Descrever só com palavras cada bicho desses, nos seus coloridos exuberantes, seria uma tarefa roseana, o maior escritor passarinheiro do mundo. Essas aves são nossas, são da Mata Atlântica do sul, são reais, são presentes. Poderiam ser pinturas nos muros e convite a olhar com atenção, convite à curiosidade de saber onde elas estão nesse momento pela cidade, convite à sensibilidade com a natureza. Duvido alguém saber que na área central da cidade tem uirapuru-laranja e não querer virar passarinheiro. Mas o turismo de Foz vive nessa corda bamba, com um pé em cada canoa, um pé em cada margem do rio. Não sabe se é de natureza ou se é de destruição da natureza. O que sobrou da natureza aqui é exuberante, não há dúvidas. Mas a natureza parece não ser suficiente para quem não a enxerga. O turismo aqui é de compras, é de cera, é de representações, de consumo desenfreado, de faz de conta. Simulacro de turismo. O turismo é uma faca de dois gumes, um bem mais cortante, canto torto: dá lucro enquanto parece que se importa com o meio ambiente. Dá lucro com a natureza enquanto estimula seu antagonista, o consumo. O parque nacional, última reserva de mata atlântica interior do sul do mundo, fica em segundo plano. O primeiro plano, na self que comprova a viagem, é o eu que consome. O parque as vezes só completa o roteiro – os passageiros precisam ficar mais dias, gastar mais. O turismo de massa não incentiva o local, em qualquer acepção. É lucrativo para uns poucos – grande bônus privado, para o ônus público dividido por quem mora, trabalha e vive na cidade desequilibrada e cara. Me lembro dos luxuosos resorts all included yucatecos que em breve devem figurar por essas bandas. Incluem tudo (aos turistas que pagam em dólar), menos a população local, excluída, que só pode entrar pelo elevador de serviço, para receber as migalhas do lucro com sua cidade. Com tanta reflexão já ia me esquecendo do muro. Nada mais adequado que pintar no muro do hotel, por onde passam milhares de turistas todos os dias, uma ave que não existe aqui. O mundo real, a magia da natureza real, não tem lugar no faz de conta neoliberal. Somos turistas em nosso próprio mundo. Poderíamos ser viajantes, que buscam experiências autênticas, aprendizado com o outro, poderíamos se maravilhar com a natureza real, no ritmo dela, apreciar cada movimento das aves, seus cortejos, suas construções extraordinárias, suas estratégias únicas para sobreviver – viver, na floresta, também é muito perigoso. Mas somos turistas. Turistas buscam representações cômodas. Preferimos araras à uirapurus, flores de plástico às flores reais, preferimos coisas à experiências. Preferimos o que de mentira é tão bonito que parece de verdade. Talvez seja uma boa hora para olhar o que é de verdade e ver o que realmente importa.
P.S. (um real pós escrito): como um epílogo anunciado, quase didático, esse texto já pouco importa: enquanto o escritor adiava a escrita, o mundo mudou. O muro, o hotel, a arara-canindé recém pintada, tudo foi demolido. Já está em construção o próximo grande empreendimento no local. É preciso investir e inovar. Mesmo que seja para destruir um hotel e construir outro em seu lugar.