Sobre a flor bela

A primeira vez aconteceu sem que eu nem percebesse. Acho que sempre acontece assim, sem que a gente perceba. Não pareceu de verdade naquela hora, sonho ruim. Se tornou realidade aos poucos, no dia a dia, ano a ano, cada vez mais real. A briga naquela primeira vez era sobre algum motivo que não era, nunca foi. Começou na saída de casa, passou pelo terreno do antigo paiol de madeira, pelo meio dos canteiros das dálias e bocas de leão e saiu pelo portão enferrujado que insistia em enfrentar a passagem do tempo na avenida movimentada. Desceu pela rua de pedra, sem calçada, com capim, poças e barro dos lados. Era noite. A discussão esquentou, subiu de tom, eu não sabia mais como sair, não sabia para onde a discussão estava indo. Lembro dos gritos, da raiva. Não lembro do assunto, do motivo, porque não era. Lembro dos gritos, da raiva. E do tapa. Um tapa. Um único, na cara. O momento de espanto deu lugar a um profundo sentimento de humilhação, degradante, instantâneo. Na cara. Ninguém tem direito de bater na cara. Se não falo em rosto é porque rosto é bonito, no rosto está a beleza dos sentimentos expressados. No rosto não se bate. A cara é que leva o tapa. Mais um instante imensuravelmente grande e a intensidade baixou, o tom de voz se transformou, desculpe foi pronunciado cem vezes, com cada vez mais agressividade mal disfarçada, a desculpa que parece um ultimato, que quer dizer ou você desculpa ou faço de novo, mas que vem vestida de arrependimento, enquanto diz desculpe foi nervosismo, te amo nunca mais vai acontecer de novo. Mas aconteceu. Muitas vezes. Levei anos para entender que quem leva um tapa e fica, leva outro. E outro. Eles querem nunca ser tapas, sempre mal disfarçados por mil desculpas, nunca são tapas, nunca é a violência como a gente vê por aí. É nervosismo, é impaciência, são os problemas na família, é o pai que também batia, a mãe que nunca entendeu, a pressão do trabalho, da universidade, da vida. Eu, porto seguro, jovem porto nada seguro, devia ajudar, desculpar. Tinha obrigação de. Se namora para isso, repetia, o amor deve ser maior. Desculpei. Uma vez, duas, três e muitas vezes. As mesmas tantas vezes que apanhei. Verbo difícil de conjugar assim, em primeira pessoa do passado vivido. Já tinha apanhado quando criança, de pai e mãe, mas no particípio passado. Impessoal, mais distante, muito menos constrangedor. Apanhar, em primeira pessoa, é mais triste. Admitir, para si ou para outros, apanhei, é dolorido. Apanhei muito. Muito mais do que gostaria de ter apanhado, muito mais do que gostaria de lembrar. Muito mais absoluto, porque não há relativo ou comparativo na inaceitável violência. Não eram só os tapas, os socos, o cabelo puxado. Era o labirinto discursivo, a discussão que rodava em círculos espirais até chegar ao inevitável, minotauros no fim do caminho. Lembro de tentar soluções, maneiras de desviar do desfecho marcado. Nunca encontrei. A vergonha maior era quando alguém via, como naquele dia, em frente ao cursinho. Eu queria evitar, a vergonha era minha. Devia ser minha? O tapa, na cara, numa conversa com outras três pessoas. Não lembro por quê. Tinha porquê? O nervosismo chega, a gente nem percebe. A cara perplexa das colegas só não tinha mais gravidade que o tapa. E a vergonha. Tentei sair, ir embora. Não podia. Era preciso resolver antes. E resolver era desculpar. E se não desculpava, tinha mais raiva. Pela rua a briga continuava. Muitas brigas foram na rua. Andávamos muito na rua naquela época. Eu só tinha uma bicicleta, me levava para todos os lugares. Mas não levava dois, então andávamos a pé. Teve aquele dia em que avisei que iria viajar por uns dias com a família. Inadmissível. O vou ficar triste se transformou em você precisa se importar que eu vou ficar triste e ficar. Daí virou um tudo bem, você ainda pode reverter a situação e dizer agora que não vai. Depois, o tom de voz mais duro, os gritos de você não pode ir. Nenhuma resposta mais era válida. Em nenhum momento alguma resposta poderia ser válida. Lembro que esse dia era de dia, um sábado à tarde. A agressão nunca tem dia, ela chega e te atinge. Nas ruas próximas, casas de parentes. A cidade era pequena, todas as ruas eram próximas de casas de parentes. A culpa era minha, a preocupação que alguém visse, também. Sofria a agressão, sofria o medo de alguém ver e pensar mal, um casal tão bonito, ia na igreja. Andávamos muito pela rua. Num aniversário, fomos à pizzaria. Comemorar datas era esquecer tudo, um novo ciclo, um recomeço. O mesmo recomeço de sempre. Durante todo o caminho escondi, misto de tolice com romantismo, o livro presente, comprado com muitas economias. Livro escolhido a dedo, presente certo para alguém que escrevia poemas. Pensei várias vezes na ironia, a sensibilidade de quem escreve poemas e agride. As ruas presenciaram momentos piores. Teve aquela briga que durou muitas quadras, calçadas, cruzamentos noturnos. Misto de humilhação e vergonha. Eu queria sumir, mas não podia sair, não podia deixar alguém tão nervoso desamparado, no meio da noite. Fiquei. Tentava consertar o que não pode ser. A discussão aumentou em uma esquina, bairro residencial, parte nobre da cidade. Antes da outra esquina o tom subiu mais do que de costume, era território desconhecido, e mesmo assim, óbvio. O puxão de cabelo foi forte, um soco, me deixei cair no chão. Decidi ficar, não levantar mais, desistir de tudo. Um chute, forte, com o bico do sapato nas costas foi o preço final. No chão, cara no asfalto, chorei. Pensei no meu avô. Pensei no livro de poesia, no recado do nome. Já sabia o ritual, aceitei. Aceitei. Não tinha muito tempo para choro. Era preciso consertar, acalmar, fazer as pazes, não permitir uma crise mais grave, desculpar. Precisava de ajuda, mas quem não precisa de ajuda? Eu podia ajudar, pensava. E tentei. Deixei de sair, deixei de ficar com a família, de fazer coisas, queria cuidar. Se tudo estava bem, ficava bem. O melhor era deixar bem, Quando não tinha agressão, não se falava de agressão, senão perigava ter nervosismo e agressão. Quando tinha agressão, não se falava de agressão, só se era agredido. Sempre havia o risco de alguma coisa não sair bem e ter agressão. Nunca foi medo, só o risco. Nunca tive medo. O risco rondava e pairava no ar, entrecortado pelos bons momentos, de amor. Sou bipolar. A frase proferida, sentença de autodiagnostico. Eu li na internet agora sabemos o que é meu amor. Pronto, mais uma camada de desculpas e justificativas. Você só precisa cuidar para não me deixar com raiva. Sou bipolar. Você precisa cuidar de mim para que só o lado bom apareça senão a culpa é sua. Era jovem a ponto de não entender a dolorosa impossibilidade da premissa. E senti na pele, em muitos lugares. Teve aquela vez, num bom lugar, a casa de retiros espirituais onde nos conhecemos. Lugar de paz. É irônico, percebo. A ironia, que na época era desespero, hoje é vergonha. Nesse dia tentei, de todos os jeitos. Tentei por não querer que aquele lugar fosse maculado, tentei porque achava que se algum lugar fosse refúgio, eu teria um refúgio, e a gente podia ter um refúgio. Mas discussão iniciada, o caminho estava traçado. Quem dera soubesse como evitar a trilha marcada – logo eu, que sempre gostei das trilhas não marcadas. Mas não soube. Nunca soube, nem hoje sei. Apenas era. Das coisas óbvias como ciúme e possessividade, às coisas banais como uma vontade errada ou uma ironia a mais. Motivos, desculpas. A discussão se desenrolou em turnos espirais, intrincados, complexos, na paradoxal ironia de um retiro de silencio. Lembro que eu queria silêncio. Silêncio de tudo. Silêncio de palavras, silêncio de gritos, silêncio de socos. Só silêncio. Queria silêncio, mas não podia. Eu nada nunca pude. Poderia, hoje eu sei, hoje eu posso. Mas ontem passou e ontem eu não podia. Alguém viu um empurrão aqui, um grito lá. Depois a explosão, fora, na noite. Minotauro no final do labirinto. Tapa, beliscão, puxão de cabelo. Na tentativa de fuga desesperada, em busca do refúgio, tive a camisa agarrada, a manga rasgada. Era uma das minhas duas camisas. O pior foi o pensamento imediato: um vestígio deixado, vou ter que explicar os comos e porquês para minha mãe, quando pedir a ela para consertar. Teria que mentir. Nunca gostei de mentir. Dentro da casa, no silêncio do retiro, uma amiga me viu, sem direção. Uma que muitas vezes me orientou. Viu pouco, achou que eram uns gritos apenas, como se violência psicológica fosse pouco. Você não pode aceitar, não pode deixar que isso aconteça relacionamentos precisam crescer, precisam ser uma soma, não uma subtração. Uma soma. Sempre somei. Defendi meu ponto, inabalável, de que era alguém que precisava de ajuda, que eu iria ajudar. Amiga, aceitou. Somei mais alguém para ajudar. Poderia ter somado todas, todas as pessoas, hoje sei. Só uma é que poderia ajudar. E nunca quis. O diagnóstico, da internet, nunca teve acompanhamento. O medo era ir no psicólogo, do psicólogo ao psiquiatra, do psiquiatra à internação. Minha família não vai me ajudar, vai querer me internar. Você é que precisa me ajudar. Precisa me ajudar. Só tenho você. Promete que nunca vai deixar me internarem, promete que nunca vai me deixar, promete que vai me cuidar. Dizia que sim prometia, sim cuidaria, sem saber bem o que fazer. Muitas vezes só deixei acontecer, sem forças para nadar rio acima. Apenas deixava de responder, impotente, ignorando os gritos cada vez mais próximos, a contração no rosto e nas mãos que anunciavam os golpes eminentes. Levava o pensamento para longe. Era difícil, a casa era grande, tinha grades nas janelas, portas fechadas, o controle do portão, você não pode sair agora. As tentativas de sair acabavam em mais desespero, não você não pode ir, já que fez tudo isso agora precisa consertar. A culpa era minha, parece que só eu não entendia. Mas entendi, tornei minha. Quando cansava de me debater na discussão infinita ou me defender das agressões, apenas deixava acontecer. O corpo ficava, vulnerável, o pensamento ia, tentando ser altivo. Encontrava meu avô que tinha partido muito cedo. Lembro que enquanto me entregava aos tapas, cuspes, puxões de cabelo que iam e viam, pensava no meu avô. Sentia vergonha. Vontade de chorar. O que ele pensaria de mim, naquele momento, o que ele me falaria? Queria imaginar que me acolheria, mas era de tempos antigos, poderia também achar que a culpa era minha. Nunca chorei por alguma surra. Chorava pensando no meu avô. Quando a agressão acabava, a [des]culpa chegava, me desculpe, não queria fazer isso, foi o nervosismo, mas tenho isso você sabe, sou bipolar, você precisa me desculpar, te amo, você precisa me cuidar, você não pode ir embora agora, tenho medo de estar perdendo a sanidade. Não quero precisar de remédio, ou pior, internação. É horrível. Você precisa me cuidar. Você me ama, não ama? Você não ama? Amo. Sabia pouco de amor naquela juventude. Achava que amava, que tinha que cuidar, em todos os momentos. Você disse que cuidaria de mim, ajudaria, você prometeu. Eu prometi. Prometi ainda mais, prometi amar, na saúde e na doença, na alegria e nas muitas tristezas, por todos os nossos dias amém. Festa bonita, família tradicional. Quando muita, a agressão acostuma. Afinal, não era sempre. Os bons momentos entre uma briga e outra. Casa nova, vida nova. Mas nem tanto. Prometi ajudar. Ajudei a procurar ajuda. A psicóloga, que pouco pode quando a terapia é nossa, sentenciou: o problema era eu. A antiga hipótese agora irrefutável verdade clínica. Eu não sabia como estancar o nervosismo quando ele aparecia. Eu não sabia acalmar. Pior, eu mesmo era responsável pelas crises nervosas. Só me restava aguentar e ajudar. Já em nossa casa, minha própria casa, as agressões continuaram. Não havia refúgio. Lembro da primeira vez, mais uma nova fronteira final, mais um limite ultrapassado – teve limite algum dia? Mais um lugar seguro maculado, mais uma esperança de que as coisas podiam ficar bem destruída. A primeira agressão na casa própria a gente nunca esquece. Tiveram outras, maiores, menores. Lembrava do livro de poesia, na antiga estante do meu avô, agora reformada e azul, no quarto parcamente mobiliado que eu insistia em chamar de escritório, lembrava da autora, adágio no presente do indicativo. Teve aquela briga, no dia em que eu disse vou para a montanha, você quer ir também? Não, e você não pode ir, sim vou, fui. Sábado de muita chuva. Caí na trilha, cortei o braço. Achei que o pior do dia já tinha passado. Mas sempre pode ser pior. De volta em casa, não havia refúgio. Havia briga. E teve briga, teve agressão. Muitas vezes me defendia, resoluto orgulho tentando ver nisso algum vestígio de dignidade. Numa tentativa de me desvencilhar bati o braço cortado no chão. Abriu a ferida. Muito sangue. Fui ao hospital no meio da noite, sangrando. Violência doméstica? Ninguém perguntaria quando me visse, óbvio. Apenas caí na montanha. Outras vezes eu comprava a briga, só para ser sujeito da ação, ter participação. Um grito mudo de desespero para um fim inevitável. E respondia os gritos à altura, um a um, escalando a tensão, sabendo exatamente onde iríamos chegar, desejando o desfecho. O gozo que me restava. Quando a agressão finalmente chegava, eu provocava, fuga nefasta. Pode bater, pode bater mais, não ligo, para nada. Quando terminava, só queria ir dormir, só me deixe dormir. Mas não dava para dormir. Era preciso primeiro consertar. Era preciso desculpar. A desculpa ultimato. Eu quero te pedir desculpas, mas você precisa me acalmar. Você me deixou assim. Você precisa resolver. Você precisa manter a calma e me acalmar enquanto apanha. Nunca revidei um golpe. Nunca revidei um golpe. Pensava no livro de poesia, no jogo de palavras, na força daquele nome. Alguém precisa ceder, eu pensava. Quem apanha já não tinha cedido faz tempo? E cedia. Mas não era só isso, não era tão simples. Não assim, você precisa me acalmar de verdade, não pode fazer de conta, precisa ser com sinceridade. A humilhação final, o labirinto que nunca acabava, o desespero de querer que tudo acabasse, que acabasse a discussão, a briga, os gritos o tempo. Era preciso achar forças para perdoar, no meio da humilhação. Perdoar. Quantas vezes pensei no que significa esse verbo. Vontade que a surra tivesse continuado ao invés da obrigação de engolir tudo, de engolir a raiva, engolir o orgulho que ainda insistia em se manter, irresoluto, engolir toda aquela loucura, toda aquela insensatez, engolir os golpes, engolir o choro, engolir a sensação de não ter saída. Está tudo bem, foi nervosismo, eu sei, vai ficar tudo bem, vamos ficar bem. Eu prometi ajudar. Não queria psiquiatra, remédio, internação. Aquela clínica particular, víamos da janela do ônibus todos os dias, dava medo, apertava mais forte minha mão, não quero vir para cá, você precisa prometer que não vai deixar. Não vou, prometo. Prometi ajudar. Pensava no livro de poemas, quase sorria com a ironia destrutiva do nome. Minha família não vai me ajudar, só tenho você. Só tinha eu, prometi ficar, precisava ajudar. Um dia, muitos anos depois, descobri que não precisava mais. A vida nos mostra outros caminhos, as trilhas são muitas. Mas você não pode fazer isso, terminar assim de repente. Mas são anos de agressões, você sabe, sempre soube, não há amor que resista. Mas você não pode fazer isso, precisa me dar outra chance. Todas as chances foram outras chances. Você não pode fazer isso. Gritos. Gritos que eu escutava cada vez menos. Vieram os pais, tribunal tríplice. Pela primeira vez em toda a vida os três concordaram: eu não podia fazer isso, a culpa era minha. Não era, eu já sabia. Mais gritos. Os gritos agora iam longe, evocavam o silêncio que existia por trás deles. Tem silêncio lá fora. Preciso de silêncio. Silêncio de gritos, de choro, de discussão e de agressões. Você não pode fazer isso, porque o nervosismo aparece. Aparecia sempre. Uma última discussão, desvairada, gritos. Gritos. Resisti. Você precisa ajudar, a súplica agressiva, fora de lugar. Eu prometi ajudar, mas nada pode ser maior que eu, preciso ajudar a mim. Mas você prometeu. Prometi. Você não pode. Posso. Ela gritou pela última vez. Fui irredutível. Saiu, com o carro, o cachorro e os gritos. Pensei no livro de poesia, no triste anuncio de uma verdade quase inconcebível, inaceitável, que precisou ficar muito tempo guardada por ser tristemente contrária ao que deve ser denunciado, quase inacreditável, durante anos indizível: flor, bela, espanca.